terça-feira, 7 de setembro de 2010

Rubem Alves - Ganhei Coragem





"Mesmo o mais corajoso entre nós
só raramente tem coragem para aquilo 
que ele realmente conhece",
observou Nietzsche. 
É o meu caso. 
Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. 
Por medo. 
Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe
acerca da hora em que a coragem chega:
"Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos". 
Tardiamente. 
Na velhice.
Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei: 
"O povo unido jamais será vencido",
 é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus 
como fundamento da ordem política. 
Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar:

 a democracia é o governo do povo. 
Não sei se foi bom negócio; 
o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, 
é de uma imensa mediocridade. 
Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo 
como instrumento de libertação histórica. 
Nada mais distante dos textos bíblicos. 
Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. 
Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha 
para que o povo, na planície, 
se entregasse à adoração de um bezerro de ouro.
Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso 
que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! 
Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!
Mas ela tinha outras idéias. 
Amava a prostituição. 
Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias
pulava de perdão a perdão.
Até que ela o abandonou. 
Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário
pelo mercado de escravos. 
E o que foi que viu?
Viu a sua amada sendo vendida como escrava.
Oséias não teve dúvidas. 
Comprou-a e disse: 
"Agora você será minha para sempre.". 
Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa 
numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. 
O povo era a prostituta. 
Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. 
O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros,
porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.
As mentiras são doces; 
a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola 
com pão e circo. 
No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos 
sendo devorados pelos leões. 
E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! 
As coisas mudaram. 
Os cristãos, de comida para os leões, 
se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente: 
judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.
As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, 
se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. 
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro
"O Homem Moral e a Sociedade Imoral" 
observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. 
São seres morais. 
Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem. 
Mas quando passam a pertencer a um grupo, 
a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente, 
são incapazes de fazer mal a uma borboleta,
se incorporados a um grupo tornam-se capazes 
dos atos mais cruéis.
Participam de linchamentos, 
são capazes de pôr fogo num índio adormecido 
e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. 
Indivíduos são seres morais.
Mas o povo não é moral. 
O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, 
segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. 
É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.

Mas uma das características do povo 
é a facilidade com que ele é enganado. 
O povo é movido pelo poder das imagens
e não pelo poder da razão. 
Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. 
Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz 
as imagens mais sedutoras.
O povo não pensa. 
Somente os indivíduos pensam. 
Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam
a ser assimilados à coletividade. 
Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.
Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. 
Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, 
o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. 
Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.

O nazismo era um movimento popular.
O povo alemão amava o Führer. 

O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. 
Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. 
Mas, que posso fazer? 
Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, 
de Saramago, de silêncio; 
não gosto de churrasco, não gosto de rock, 
não gosto de música sertaneja,
não gosto de futebol.
Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, 
eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos
e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno", 
à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. 
Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, 
é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute:
"Caminhando e cantando e seguindo a canção.", 
Isso é tarefa para os artistas e educadores.
O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.

Rubem Alves

A Caixinha por Tatiane Melo


Uma de minhas amigas que também possui uma "Lucidez Perigosa", me presenteou com está "Caixinha".


Ah, mas eu bem que queria
Botar as coisas em caixinhas,
E separar por categoria.
Tudo aquilo que há de bom,
E tudo o que há de ruim.

Para tudo aquilo que há de ruim,
Eu colocaria, fora da caixinha, um aviso.
Aquelas caveiras, com dois ossos cruzados, com os dizeres:
Perigo, mantenha a distância!

Se ainda sim o aviso não fosse suficiente,
Eu colocaria cadeado, e jogaria a chave fora.
E esconderia a caixa, muito bem escondida,
Para que ela nunca fosse encontrada.

E se necessário fosse, eu seria a vigilante,
incansável,
desse terrível esconderijo.
Para que, ninguém, para o que quer que fosse,
Encontrasse essa caixa.


Assim, tudo seria mais fácil.


Mas quem criou o mundo
Resolveu colocar tudo numa mesma caixa.
Sem legendas, sem avisos.
E fez várias dessas caixas.
E entregou uma a cada um de nós.

E nos deixou a delicada tarefa
De aprender a lidar, por nossa conta e risco,
Com tudo o que vem dentro dessa caixa.

E a confusão, a mistura que existe dentro dessa caixa é tamanha,
que nenhum de nós é capaz de saber, a princípio,
o que encontraremos nela.

E na medida em que vamos vasculhando essa caixa
Passamos a acreditar que as legendas existem.
Achamos que somos capazes de identificar.
De explicar. De separar.
De categorizar o que encontramos lá dentro.

Tolos, cremos, por nossa pura e simples vontade,
Pelo nosso inocente desejo,
que as coisas são, de verdade, como acreditamos
(e desejamos e queremos)
que elas sejam.


Mas não.


As separações não existem.
As categorias são ilusórias.
E as legendas, impossíveis.

Pois, bondade e maldade
Dor e alegria,
Gratidão e decepção,
Lealdade e falsidade,
Amor e ódio...

Se mesclam,
Se misturam,
Se travestem de tal forma,

Que nem o melhor dos seres está protegido do mal e da dor,
E nem o pior dos humanos está desprovido de amor.

E, por mais que tentemos criar as nossas caixinhas com legendas...

Nenhum de nós está livre de todas as surpresas,
Desse emaranhado de coisas.
Dessas coisas boas, e dessas coisas ruins,
que existem dentro desta caixa que nos foi dada.


Essa pequena caixa chamada vida.

O valor de uma amizade

Adorei esse feriado pois passei conversando com minha querida amiga Analiete. Com ela pude vivenciar o melhor dos sentimentos, a amizade. Minha amada irmã que escolhi, tenho saudades do tempo em que estávamos próximas diariamente, mas a distância é apenas um detalhe que fortalece nossa parceria.

A Analiete muitas vezes foi a temperança para minha impulsividade. E hoje me presenteou com um pensamento de Buda.


"Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque esta escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê 
 que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o." Buda 

Lucidez de Clarice



E o que faço dessa Lucidez? Para que ela me serve? Ver as coisas assim tão nuas e não ter o poder para transformá-las? Longe da arrogância eu mereceria um cabresto. 

 “Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.

Me reconhecendo nas palavras de Clarice Lispector


E não é que ela era Sagitariana como eu? Acho que ela conseguiria me entender.


      “Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
       Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”