Uma de minhas amigas que também possui uma "Lucidez Perigosa", me presenteou com está "Caixinha".
Ah, mas eu bem que queria
Botar as coisas em caixinhas,
E separar por categoria.
Tudo aquilo que há de bom,
E tudo o que há de ruim.
Para tudo aquilo que há de ruim,
Eu colocaria, fora da caixinha, um aviso.
Aquelas caveiras, com dois ossos cruzados, com os dizeres:
Perigo, mantenha a distância!
Se ainda sim o aviso não fosse suficiente,
Eu colocaria cadeado, e jogaria a chave fora.
E esconderia a caixa, muito bem escondida,
Para que ela nunca fosse encontrada.
E se necessário fosse, eu seria a vigilante,
incansável,
desse terrível esconderijo.
Para que, ninguém, para o que quer que fosse,
Encontrasse essa caixa.
Assim, tudo seria mais fácil.
Mas quem criou o mundo
Resolveu colocar tudo numa mesma caixa.
Sem legendas, sem avisos.
E fez várias dessas caixas.
E entregou uma a cada um de nós.
E nos deixou a delicada tarefa
De aprender a lidar, por nossa conta e risco,
Com tudo o que vem dentro dessa caixa.
E a confusão, a mistura que existe dentro dessa caixa é tamanha,
que nenhum de nós é capaz de saber, a princípio,
o que encontraremos nela.
E na medida em que vamos vasculhando essa caixa
Passamos a acreditar que as legendas existem.
Achamos que somos capazes de identificar.
De explicar. De separar.
De categorizar o que encontramos lá dentro.
Tolos, cremos, por nossa pura e simples vontade,
Pelo nosso inocente desejo,
que as coisas são, de verdade, como acreditamos
(e desejamos e queremos)
que elas sejam.
Mas não.
As separações não existem.
As categorias são ilusórias.
E as legendas, impossíveis.
Pois, bondade e maldade
Dor e alegria,
Gratidão e decepção,
Lealdade e falsidade,
Amor e ódio...
Se mesclam,
Se misturam,
Se travestem de tal forma,
Que nem o melhor dos seres está protegido do mal e da dor,
E nem o pior dos humanos está desprovido de amor.
E, por mais que tentemos criar as nossas caixinhas com legendas...
Nenhum de nós está livre de todas as surpresas,
Desse emaranhado de coisas.
Dessas coisas boas, e dessas coisas ruins,
que existem dentro desta caixa que nos foi dada.
Essa pequena caixa chamada vida.

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